CIDADE E DISCURSO – UMA BUSCA DE NOMEAÇÃO
Carlos Augusto Magalhães - UNIFACS
As cidades também acreditam ser obra do espírito ou do acaso, mas nem um nem o outro bastam para sustentar as suas muralhas. De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete muralhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas.
Italo Calvino
Aprender uma cidade é, na verdade, uma coisa lenta. É preciso, entretanto, saber algumas coisas, e precisamos andar distraídos, bem distraídos, para reparar nessa alguma coisa.
Rubem Braga
O conceito de cidade talvez seja um dos mais complexos e abrangentes. Na verdade, a relação entre cidade e homem constitui-se num permanente objeto de reflexão. Criação humana e marca significativa da civilização, a cidade permite a vida em sociedade de grande parte da população mundial, e é, em si, um fato cultural em mutação contínua.
O aglomerado humano faz eclodir uma diversidade crescente de trocas. A cultura urbana é o resultado e, ao mesmo tempo, o elemento desencadeador das cenas e dos instrumentos que determinam e qualificam um modus vivendi. Refletindo sobre a vida urbana, Maria Elena Foglia afirma que “como produto e produtora de uma cultura, a cidade e sua materialização física, a urbanização, são um fato dinâmico e heterogêneo, assim como o são seus habitantes e os pensamentos que deles se originam, em todos os campos do conhecimento humano”.[1] Interpretar e nomear a cidade relaciona-se, intimamente, com o acompanhamento de sua trajetória histórica, ação engendrada pela sociedade, que, ao exercitar o processo de interação, provoca transformações na morfologia funcional urbana. A interação social contribui, fundamentalmente, para que traços definidores da identidade da cidade venham a se delinear.
Assim, além de fenômeno físico e geográfico, a cidade é, sobretudo, realidade simbólica. Angel Rama afirma que “as cidades desenvolvem uma linguagem mediante duas redes diferentes e superpostas: a física, que o visitante comum percorre até perder-se na sua multiplicidade e fragmentação, e a simbólica, que a ordena e interpreta, ainda que somente para aqueles espíritos afins, capazes de ler como significações o que não são nada mais que significantes sensíveis para os demais”.[2] Dessa forma, além de inventário de ruas, praças, casas, prédios, limites físicos, a cidade é, sobretudo, palco, por excelência, onde, a cada instante, realizam-se trocas simbólicas e intercâmbio de signos. Calvino vislumbra a cidade neste prisma, considerando que a urbe “deixa de ser um conceito geográfico para se tornar o símbolo complexo e inesgotável da existência humana”.[3]
Uma das formas de estudar a cidade é analisá-la como “construção simbólica” e como interligação entre realidade e realização de sonhos. Segundo Frye, “o mundo apocalíptico, o céu da religião, apresenta, em primeiro lugar, as categorias da realidade com as formas do desejo humano, tais como indicadas pelas formas que assumem como trabalho da civilização humana. (...) A forma humana do mundo mineral, a forma na qual o trabalho humano transforma a pedra é a cidade.”[4] Assim, a urbe nos chega como uma mensagem metafórica, já que é resultante de uma criação do homem, que transforma pedra em discurso e imagem. A cidade, juntamente com o jardim (produto do trabalho e desejo humanos no mundo vegetal) e com o aprisco (curral de ovelhas, resultado do investimento no mundo animal) são as metáforas que organizam a Bíblia e a maior parte do simbolismo cristão, aponta Frye[5].
Não se pode perder de vista que a cidade é texto, discurso, linguagem; trata-se de uma categoria plena de imagens em permanente mutação, o que possibilita, segundo Ostermann, que a urbe seja visualizada como “um livro de pedras que está constantemente se reconstruindo, permitindo a formação de imagens. Por trás do concreto real, existem outras imagens – imagens sonhadas – que surgem das provocações da imagem objetiva e geral, assim como dos nossos devaneios, e que ambas as imagens, percebidas ou simplesmente projetadas pela mente individualizam uma cidade.”[6] Além das imagens objetivas, retidas pelo olhar que traça o perfil imediato de uma cidade, há outras, produto da interação de nossa imaginação com o espaço vivido.
Ler a cidade é tentar apreender as diversas linguagens que a nomeiam. A dimensão sígnica oferece a possibilidade de se deixar ser visualizada como referência tempo-espacial, o que confere a esta mesma dimensão uma feição histórica. Relatando sua epopéia ou exercitando a memorização, a cidade se interroga para delinear a própria identidade. Ainda que inesgotáveis, os sentidos tendem a confluir e delinear pontos de referência. Numa demanda de identidade, a urbe registra sua história e, assim fazendo, ela se expressa como discurso e como imagem, elementos que produzem e evocam símbolos. Tais construções simbólicas, mesmo quando fragmentadas, são possibilidades de leituras, ainda que parciais e provisórias. Assim, a cidade é narradora de sua própria trajetória. Segundo a afirmativa de Raquel Rolnik, a urbe se apresenta como “um registro, uma escrita, materialização de sua própria história.”[7]
Assim, as formas urbanas promovem conceitos, significados, leituras, entendimentos múltiplos e diversificados e fundamentam a idéia de realidade urbana e o próprio sentido do termo cidade, bem como consolidam jeitos de ser e viver num espaço geográfico determinado. É evidente que tais conceitos, entendimentos e interpretações assumem certas significações, na medida em que se apresentam interligados com valores de um determinado tempo-espaço da história e da cultura humanas, no caso, o tempo-espaço da cidade.
Qualquer cidade, independente de tamanho, época ou lugar, assume e desempenha funções e papéis, que a elegem como referência comercial, administrativa, cultural, política, religiosa, militar. De acordo com Raquel Rolnik, uma cidade é o “centro e expressão de domínio sobre o território, sede do poder e da administração, lugar da produção de mitos e símbolos.”[8] O sentido de dominação parece ser o traço característico da cidade – fenômeno cultural – e especifica a atuação do homem sobre a natureza.
Na modernidade, a perspectiva do poder político voltado para o “domínio sobre o território” identifica-se com uma utopia de racionalização da vida urbana, cujo ordenamento é o pressuposto básico e fonte de inspiração do que seria uma cidade igualitária, justa, perfeita. O modelo espacial moderno é, desta forma, centrado na ordem e no controle social, de modo a se evitar a conturbação, a anarquia, a revolução. Este parece ser um dos elementos impulsionadores da interferência nas cidades européias.
Na verdade, os padrões cartesianos e positivistas que norteiam as interferências modernizadoras nas cidades, em especial, na Paris do século XIX, trazem em seu bojo os germes do controle da sociedade, através da hierarquização dos espaços urbanos, divididos e reorganizados; delimita-se, assim, a ocupação da região do centro – espaço dos quarteirões de negócios e onde se localizam os grandes hotéis, as grandes lojas, os grandes cafés. Delimita-se, também, a ocupação da região das periferias – espaço dos bairros residenciais destinados aos privilegiados. Persegue-se a utopia de uma regeneração social para todos, só alcançável a partir da adoção de princípios racionais para a vida nas cidades.
Assim, o locus urbano do século XIX é eleito como o espaço e o tempo da modernidade e da ciência, bem como, torna-se o centro de onde o homem exercerá o poder e o controle do mundo, como observa Pechman: “pela primeira vez a cidade se torna foco de observação, análise e discurso. Basicamente, porque este espaço passa a representar a própria civilização, na medida em que a vida urbana é vista como destino inexorável. Dito de outra maneira, a cidade é o laboratório onde a civilização moderna está gestada.”[9]
Arrefecidos os condicionamentos da vida nas comunidades feudais, a cidade torna-se o cenário onde se engendram as relações capitalistas e onde os movimentos sociais com horizontes mais amplos surgem e, efetivamente, ganham espaços de consolidação. As cidades tornam-se, assim, grandes centros de efervescência e intercâmbio sociais, culturais e intelectuais. Como aponta Bradbury,
nessas capitais culturais de toda a Europa – que às vezes, mas nem sempre, eram as capitais políticas dos países –, desenvolveu-se uma atmosfera fervilhante de novas artes e novas idéias (...) Quando pensamos no modernismo, não podemos deixar de evocar essas atmosferas urbanas, as idéias e campanhas, as novas filosofias e políticas que as atravessam: Berlim, Viena, Moscou e São Petersburgo na virada do século e até os primeiros anos da guerra; Londres, nos anos imediatamente anteriores à guerra; Zurique, Nova York e Chigaco durante a guerra; e Paris o tempo inteiro.” [10]
Partindo-se do pressuposto de que só se percebe ou só se tem acesso a uma cidade através de suas imagens, pode-se afirmar que a cidade transforma-se no lugar, por excelência, onde se encenam as imagens da representação do desenvolvimento e progresso humanos. Pechman assevera: “a articulação cidade/civilização tornar-se-á fatal para a transformação da cidade em objeto de discurso. É óbvio que não se trata apenas do lugar físico onde a civilização está sendo construída. (...) Esta articulação diz respeito muito mais à cidade como lugar do entrecruzamento dos discursos sobre a civilização, isto é, trata-se certamente de imagens.”[11] A interpenetração entre cidade e processo civilizatório “impregnará definitivamente as imagens formuladas sobre a cidade, tornando-se uma fonte onde a literatura e as artes em geral irão se abeberar.”[12] Esta inter-relação atua, fundamentalmente, no sentido de qualificar a cidade como realidade da linguagem e como categoria, eminentemente, simbólica. A literatura é um dos discursos que realiza a recriação artística da cidade, por intermédio do jogo com a palavra metafórica. Assim, o mundo mineral – a pedra – é transmudado em história e em discurso.
[1] Maria Elena FOGLIA. Agonia da urbanidade? Reflexões sobre a cidade futura e o urbanismo pós-moderno. Trad. Regina Andrade de Aguiar. Rua. Revista de Arquitetura e Urbanismo. Salvador: UFBA / Faculdade de Arquitetura, Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, n. 6, jul-dez 96, p. 31.
[2]Angel RAMA. A cidade das letras. Trad. Emir Sader. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 53.
[3]Italo CALVINO. As cidades invisíveis. Trad. Diogo Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, 1990 (contracapa)
[4] Northrop FRYE. Crítica arquetípica: teoria dos mitos. In: Id. Anatomia da crítica. Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Cultrix, 1957, p. 142-3.
[5] Id. loc. cit.
[6] Erika Alezard OSTERMANN. Imagem urbana: percepção e devaneio. Rua, Revista do Mestrado de Arquitetura e Urbanismo. Salvador: UFBA / Faculdade de Arquitetura, n. 6, jul.– dez. 96, p. 46.
[7] Raquel ROLNIK. O que é cidade. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 9 (Primeiros Passos, 203).
[8] Id. ibid. p. 8.
[9] Robert Moses PECHMAN. Pedra e discurso: cidade, história e literatura. In: Cleonice BERARDINELLI, Izabel MARGATO e Renato Cordeiro GOMES (orgs.) Semear. Revista da cátedra Padre António Vieira de estudos portugueses. Rio de Janeiro: NAU, 1999, p. 64-5.
[10] Malcolm BRADBURY. As cidades do modernismo. In: BRADBURY, Malcolm e McFARLANE, James. (orgs.) Modernismo: guia geral 1890 – 1930. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 76.
[11] Robert Moses PECHMAN. Pedra e discurso: cidade, história e literatura. In: Cleonice BERARDINELLI, Izabel MARGATO e Renato Cordeiro GOMES (orgs.) Op. cit. p. 65.
[12] Id. loc. cit.